28.4.10

Flavio Luiz, um dessinateur baiano

Por Marcelo Lima

Flavio Luiz é um artista baiano que cria histórias em quadrinhos. Não bastasse ter uma profissão pouco reconhecida, ainda nasceu em um dos estados brasileiros com menor tradição para a arte gráfica sequencial. Apesar do berço pobre, seguiu o exemplo de desenhistas baianos como Antonio Cedraz e Nildão, se dedicando à aprimoração do seu trabalho independentemente da existência de um mercado. O termo francês dessinateur (desenhista) faz referência a suas principais influências no fazer de quadrinhos, os álbuns da nona arte franco-belga.

Através da qualidade de seu trabalho, Flavio Luiz conseguiu manter parcerias que resultaram na publicação de duas revistas da personagem Jayne Mastodonte (uma delas venceu o prêmio HQ Mix, maior troféu da área de quadrinhos), duas coletâneas de tiras (que eram publicadas no Correio da Bahia, atual Correio*) e a aprovação pela Lei Rouanet do álbum Aú, O Capoeirista, lançado em 2008. Este trabalho, aliás, o projetou no cenário nacional, uma vez que além de ter sua primeira impressão (2000 exemplares) esgotada, o livro foi adquirido pelo Programa Sala de Leitura da Fundação para o Desenvolvimento da Educação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (mais 3596 exemplares vendidos). Sendo assim, Aú, O Capoeirista se tornou um sucesso editorial, principalmente se for levado em conta que se trata de um trabalho sem editora.

Atualmente morando em São Paulo, Flavio Luiz nos respondeu por email perguntas acerca de fatos recentes da sua carreira e o que muda agora que ele saiu de Salvador para se tornar um autor reconhecido em todo Brasil.

Lupa Digital: Conte a trajetória de divulgação do Aú, O Capoeirista antes da adoção pela Secretaria de Educação do Estado de S. Paulo. Sabemos que HQs, comumente, não vendem muito, ainda mais sendo um álbum em capa dura de uma personagem nacional.

Flavio Luiz: O Aú foi um projeto estruturado a longo prazo. Eu e minha mulher e produtora passamos 1 ano desenvolvendo todos os aspectos do projeto, abrindo a editora Papel A2, definindo as metas, fazendo o projeto para a Lei Rouanet. No projeto uma boa parte do trabalho foi voltada para a divulgação e distribuição. Já tínhamos experiência com produção e lançamento independentes e sabíamos que, sem uma boa estratégia, o material ficaria parado. Profissionalizamos o trabalho para ter maior e melhor retorno. Já no lançamento distribuímos os álbuns em 06 capitais, com média de distribuição de 60 exemplares por capital. Em algumas vendemos muito bem e outras não, mas principalmente realizamos o trabalho de divulgação e contato com os mercados de cada capital. Também investimos em uma excelente assessoria de imprensa (LITERA do JAL – José Alberto Lovetro) que enviou o Aú para os principais veículos e todos os sites e críticos de quadrinhos. Quando terminamos o lançamento não tinha ninguém na área que não o conhecesse. Detalhe importante: Esse projeto do Aú foi apresentado e RECUSADO pelo FAZCULTURA de Salvador.

LD: E quanto ao contato com a Secretaria de Educação, como se deu e qual o impacto dessa parceria para sua vida profissional?

FL: Nós não entramos em contato com a Secretaria. Só ficamos sabendo da adoção do Aú pelas escolas públicas quando começamos a vender muito além de nossas expectativas. Em uma das vendas, que fizemos diretamente para uma escola, perguntamos sobre o que se tratava e ficamos sabendo que o título tinha sido selecionado para fazer parte de uma lista de opções de projetos que ajudam escolas que não conseguiram um bom rendimento a melhorar seus índices. Algumas das escolas escolheram trabalhar com o Aú e foi assim que tudo se desenrolou.

LD: Quando fez o Aú, você tentou trabalhar nele algum conteúdo voltado para formação pedagógica ou qualquer tipo de uso em escolas?

FL: Em nenhum momento esta foi uma preocupação. Meu objetivo sempre foi fazer quadrinho de entretenimento. Não quero ser didático, o que pode fazer um trabalho ficar chato. O que acredito que aconteceu foi um conjunto de situações. Eu criei com um herói negro, jovem, capoeirista, que fala a linguagem popular. Procurei ser fiel a uma realidade que conhecia, da minha cidade, da capoeira que já joguei, do uso de expressões que são comuns aos baianos, de personagens que nos cercam no dia-a-dia. Acredito que hoje a educação busca estar mais próxima da realidade dos alunos e, sem ter isso como objetivo, acabei me beneficiando. Mas principalmente porque minha história é honesta, verdadeira. Meus personagens estão nas ruas e ladeiras da Bahia. Tudo é uma questão de saber olhar, e no meu caso, saber transformar isso em quadrinhos.

LD: Desde o começo da produção de Aú, O capoeirista, você identificou a obra como uma bande dessinée (quadrinho francês) e o próprio personagem estreiou numa exposição na Aliança Francesa. Na livraria do aeroporto internacional de Salvador, o seu livro estava em destaque. Você crê que criou uma obra em quadrinhos “tipo exportação”? Há conhecimento de estrangeiros que leram sua obra? Há planos de publicá-la fora?

FL: Na verdade, o desenho da Aliança não era o Aú de fato, mas dele brotou a idéia que eu desenvolvi anos depois. Além de profissional dos Quadrinhos sou colecionador, de quadrinhos americanos e europeus na sua maioria. O formato de apresentação e o timming do Aú é da escola européia e será muito legal quando conseguir publicá-lo lá fora. Acho que preciso ainda firmar o personagem nacionalmente mas estou, claro, super interessado num convite e tenho pessoas prospectando espaço além mar.

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LD: Em entrevistas cedidas ao Pop Balões e à Oficina HQ você declarou certo ressentimento com o mercado baiano de ilustrações e quadrinhos. Desde o lançamento de Aú você se mudou para SP, que é o grande centro de quadrinhos do Brasil. O que você está achando daí? Há realmente uma rede de contatos e de consumidores tão grande que se configuram em uma cena?

FL: Acho que RESSENTIMENTO é uma palavra muito forte e como filho de Salvador onde tenho famiília e meus melhores amigos prefiro enxergar de outra forma. Acho que tudo passa por uma questão de prioridades culturais e postura profissional de quem contrata um profissional de ilustração. Explicando melhor: o mercado consumidor de quadrinhos em Salvador sofre com a SETORIZAÇÃO na distribuição dos títulos lançados no sul e sudeste, e consumir HQ é um comportamento muito urbano. Diante de tanta praia e tanta festa, a galera prefere gastar uma grana na balada ou na praia do que torrar numa revista. Eu sempre preferi gastar com GIBIS… Vou dar um exemplo. Vendi 475 exemplares da minha revista JAYNE MASTODONTE#1 em São Paulo e ganhei o HQMIX de melhor revista independente no ano em que a lancei. Em Salvador vendi apenas 5 exemplares! Enquanto em São Paulo alguém sempre comentava ou me cobrava o numero dois, aí em Salvador isso não fazia, no meu caso, a menor diferença. Na hora de me contratar como um profissional de ilustração nunca o meu currículo, minha destreza, meu estilo, minha criatividade pesou. Sempre era o preço que pesava e depois de 20 anos num mercado onde vc tem que ficar regateando preço. Acaba sendo frustrante. Não pagar 1000 reais num personagem ou querer pagar 300 reais em 22 frames de storyboard coloridos sabendo que cada frame desses custa até 200 por aqui, é difícil para quem se respeita como profissional como eu. Recusei dezenas de trabalhos em Salvador nos últimos anos por causa dessa postura… Exceção feita ao Portela da CIA DA PIZZA que sempre me pagou de forma justa pelos serviços que prestei ao longo de anos como fornecedor. Não sei se nesse ano e pouco que saí daí a coisa melhorou. A criação da AQB – ASSOCIAÇAO DE QUADRINIHSTAS DA BAHIA, por coincidência fundada no dia do meu aniversário, mostra que os profissionais, excelentes por sinal, que temos aí buscam melhorar esse quadro. Outros acabaram mudando de ramo ou de cidade. Como eu, o THIAGO HOISEL, UM DOS MAIORES CARICATURISTAS DO MUNDO e que também está em São Paulo e Davi Sales que mora em Recife! São Paulo realmente é o grande centro, mas temos revistas e mercado de HQ ativo em Recife, Minas, Porto Alegre, Rio de Janeiro… Acontece que em São Paulo a atitude é mais urbana, todas as editoras ou a maioria delas está aqui. É aqui que rola o HQMIX, A PIZZADA DOS CARTUNISTAS, A FEST COMIX, O ENCONTRO DOS ILUSTRADORES… Todos esses lugares e grupos me receberam com carinho e admiração. Bem diferente do que vc chegar com 26 prêmios no currículo, entre eles, um HQMIX, dois Piracicabas, e ter que ouvir pra deixar seu número que seu trabalho vai ser avaliado por dois caras sentados numa mesa de “prastico” no Shopping Barra só porque estão organizando uma feira de HQ num colégio na Pituba. Eu, claro, por necessidade tinha que buscar todos os meios pra escoar minha produção, porém corta o coração ouvir isso de quem se diz consumidor, leitor, fazedor de HQ… É muita alienação e auto-referenciamento pro meu gosto… Resumindo. Eu me incomodava demais com essas coisas e como diz o ditado, OS INCOMODADOS QUE SE MUDEM. Não culpo quem consegue conviver e viver do traço numa situação dessas. É bem mais admirável do que eu! Aqui em São Paulo até agora não tenho do que me queixar, muito pelo contraário! Vale também ressaltar que detesto um certo bairrismo que rola, principalmentee em Salvador, de ter que ser daí e ficar aí pra existir. Caymmy, Tom Zé, João Gilberto, João Miguel, Pitty, Lázaro Ramos, Wagner Moura moram ou moraram em outras cidades e adoram a Bahia como eu! Vale dizer que venho sempre a SP desde que nasci tendo morado um ano em Santos e pelo menos uma vez por ano estive por aqui nos últimos 10! Adoro esse estresse que é a minha cara!

LD: Flavio, você esteve em contato com o mercado europeu, inclusive estudando na Joso Comics, na Espanha. Ao conhecer a realidade espanhola, pôde ver que estava à altura dos profissionais de lá. Não pensa em seguir o caminho de desenhistas como o José Aguiar e LEO ou do roteirista Wander Antunes, e oferecer um projeto para uma grande editora?

FL: Quiseram publicar a Jayne #1 em catalão mas achei que seria muito restrito. Isso foi em 96 quando morei lá e espero que com o Aú, eu consiga um contato mais promissor, principalmente na FRANÇA. Tenho um outro projeto em andamento e ele também, no seu devido tempo, tentará voos maiores.

LD: Qual foi seu melhor momento, na Bahia, enquanto quadrinhista?

FL: Acho que o meu melhor momento poderia ter sido, mas não foi, as caricaturas e ilustrações do Carnaval Tropicalista em 98. Não foi porque fui descaradamente enganado na questão de dinheiro e de divulgação pelo grupo que me contratou, no corre corre com prazo estourando para apresentar a proposta que acabou ganhando. Só recebi divulgacão porque eu mesmo corri atrás para informar que eu tinha feito o material. Os responsáveis na época sonegaram essa informação e se aproveitaram de minha ingenuidade para não me pagar devidamente. Assinei sem ler o que disseram ser a primeira parcela e a palavra quitação estava lá. Eu paguei por minha ingenuidade e não teve reunião que fizesse retroceder isso… Era isso ou não trabalharia mais em Salvador…Ver o meu desenho do painel de Dodô e Osmar da Castro Alves por trás de uma entrevista e sequer ter meu nome citado doeu muito mas isso também é passado e não vale a pena remexer. Mas se procurarem nos arquivos da TV Bahia capaz de acharem o tal depoimento… Ter minha tirinha Rota 66 publicada no jornal Correio da Bahia por 3 anos, por outro lado, foi muito legal!

LD: Recentemente o desenhista Rafael Grampá foi entrevistado para um site norte-americano que o perguntou sobre a “onda brasileira” de desenhistas norte-americanos. Ele respondeu que não havia onda, nem movimento, mas grandes desenhistas que não querem mais se limitar a um mercado fraco. O que você acha desse posicionamento? Além de seu trabalho selecionado pela Diamond, você pretende investir mais nesse mercado?

FL: Concordo com o Grampá. Tentar colocar como ONDA é tambem simplificar um lance que acontece desde há muito. Tem gente publicando lá e aqui, na Europa… E sim, continuamos num mercado fraco comparado a esses citados, porém está melhorando e nunca se publicou tanto quadrinho e de tantos estilos diferentes no Brasil. O problema é que não tem comparação o que se ganha os EUA e Europa com o que se pode pagar aqui. Mas sou otimista quanto a isso também! Por ser muito autoral no traço e por ter meus personagens pra cuidar não tinha grandes pretensões de trabalhar para o mercado desta forma. Mas espero dar boas notícias ainda esse ano aos que gostam do meu desenho !

LD: Depois de vender 7000 exemplares, Aú, O Capoeirista se tornou uma marca rentável. Até publicá-lo você teve dificuldades sérias com patrocinadores que não acreditavam no trabalho por achar que quadrinhos não davam retorno. Agora que deu a volta por cima, você pensa em desenvolver mais produtos da personagem? Já existem empresas interessadas em lançar linhas de produtos de Aú, O Capoeirista?

FL: Quanto ao licenciamento estamos trabalhando nisso. Minha mulher é quem cuida dessa parte. No momento temos cangas do Aú pelas praias do Brasil, feitas sob licenciamento para a BALIBLUE do Rio de Janeiro. Falam aqui que que a turma do Aú daria uma excelente linha de ACTION FIGURES!! Eu vou adorar, pois também faço coleção!!

LD: Sem o apoio da Lei Rouanet, Aú demoraria mais tempo para sair. Quais os pontos positivos e as limitações de se trabalhar com editais públicos na produção de obras de arte?

FL: O Aú foi recusado pelo FazCultura já que os responsáveis pela avaliação de projetos de literatura (não tinham avaliadores de quadrinhos, pelo menos na época) o acharam caro. E reclamaram do fato de eu estar na ficha técnica como roteirista e desenhista. Argumentaram que o Maurício de Souza faz tudo e só assina uma vez, portanto só ganha uma vez. Dá pra argumentar o quê com um avaliador desses? O Aú foi feito pela Lei Rouanet, e patrocinado por pessoas que acreditaram em meu potencial. E a quem serei eternamente grato. O FazCultura não me deu nada. Cheguei a fazer o número# 2 da Jayne pelo FazCultura, mas foi tão cheio de problemas, foram tantas coisas para acertar que no fim eu mal tinha a grana da impressão. Mas não quero mais falar do FazCultura. Pelo amor de Deus!!! Em relação a Lei Rouanet também é minha mulher que cuida disso. O que ela diz é que é difícil e burocrático, mas com organização e planejamento é o melhor que temos e viabiliza os projetos. Eu sou um cara de criação. Não entendo e não gosto de burocracia, mas sou a favor de tudo o que venha para nos ajudar.

LD: Hoje em dia, ter estado na coletânea MSP 50 é sinal de prestígio e reconhecimento enquanto desenhista – afinal, quem seleciona os autores é o Sidney Gusman, um dos maiores jornalistas brasileiros da área de quadrinhos. Como foi que aconteceu o convite e quais suas ligações com os Estudios Mauricio de Sousa?

FL: Prestígio como autor já que o roteiro também foi meu. Cada artista convidado teve carta branca para fazer em até 5 páginas o que quisesse com os personagens do Maurício. Soube que o Maurício gostou muito do Aú, bem mais do que a Jayne que ele também conhecia e dele partiu o convite. Quanto ao estúdio a minha ligação é de amizade e admiração. Sidney Gusman é como um irmão para mim e sempre incentivou o meu trabalho além de ser um fã ardoroso da Rota 66 que ele espera eu possa republicar em formato livro… Quem sabe em 2011?

LD: Por fim, conte sobre seus futuros projetos, sonhos e aventuras.

FL: Este ano estamos trabalhando no lançamento de um novo título meu. Por enquanto ainda é sigilo. Também queremos lançar a segunda aventura do Aú. Queremos incrementar os trabalhos da Papel A2 – Texto & Arte, nossa editora. Nosso foco são trabalhos diferenciados e que tratam dos quadrinhos tangencialmente. Livros especializados, biografias, ensaios e publicações especiais. Esperamos que, até o meio do ano, a empresa esteja estruturada para começarmos a correr atrás dos projetos e conciliar com meu trabalho como ilustrador publicitário. Estou vivendo o meu melhor momento profissional e pessoal. Graças a Deus e a Oxóssi!

Para ver ilustrações e HQs de Flavio Luiz, acesse os seguintes sites:
http://flavioluizcartum.fotoblog.uol.com.br/
http://www.auocapoeirista.com.br/

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