1.6.09

ADESP, a primeira reunião dos desenhistas nacionais


            Em 31 de janeiro de 1961, assumia a presidência da República, o advogado e professor Jânio da Silva Quadros. Político populista teve uma carreira meteórica: foi eleito vereador paulistano, deputado estadual, prefeito de São Paulo, governador e presidente, em pouco mais de 15 anos de vida pública. Jânio ostentava a figura do anticorrupto e moralista, e usava o mote do nacionalismo contra a influência da cultura americana para amealhar votos. Hoje ele é mais conhecido pelas atitudes intempestivas como a proibição da briga de galo, a falsa casta no paletó e até pela medalha oferecida ao líder cubano Che Guevara. Mas poucos se lembram que Jânio foi eleito acima dos partidos políticos e queria governar acima deles. Com pouco apoio no Legislativo, Jânio pensou que poderia aplicar o golpe de cena: renunciaria ao cargo e seria reconduzido à presidência, nos braços do povo, com poderes excepcionais. Mas a renúncia, em 25 de agosto de 1961, foi uma pantomima, os deputados federais aceitaram o ato e Jânio ficou em ação e sem o cargo.  Só conseguiu agravar os ânimos entre os nacionalistas e os conservadores, que culminou com o golpe civil-militar de março de 1964.

            Foi nessa curta passagem pelo governo federal que Jânio Quadros flertou com a cultura nacional e com os quadrinhos. No início de 1961, os deputados federais Aarão Steinbrock, José Alves e Eloy Dutra elaboraram um projeto de lei que indicava percentuais de publicação para autores de quadrinhos nacionais em jornais e revistas. Incentivado pela proposta o jornalista Renato Reis Barbosa (irmão de Ely e Benedito Ruy), do diário Correio Paulistano, iniciou uma série de quinze reportagens com desenhistas nacionais. O jornal era simpatizante do presidente e procurava incentivar a cultura nacional realçando suas artistas. Tanto que a primeira reportagem de página inteira apresentava uma foto do presidente ladeado por umas de personagens em quadrinhos nacionais.  Essas matérias (com Julio Shimamoto, Messias de Melo, Gedeone Malagola, Ely Barbosa, Péricles e Orlando Puzzi) levantavam a questão do mercado e do bom produto nacional.   Em conseqüência delas ou por oportunidade delas, foi convocada uma reunião com os desenhistas de São Paulo com o assessor de Educação e Cultura da Casa Civil da Presidência da Republica, Fábio B. Gianinni. 

            A reunião aconteceu no dia 21 de junho no estúdio de quatro desenhistas: Waldir Igayara, Lírio Aragão, Julio Shimamoto e Luiz Saidenberg, no prédio Martinelli, no centro de São Paulo. Dessa reunião, foi apresentada ao assessor presidencial toda a situação do quadrinho nacional, desde o baixo valor pago pelas tiras e páginas de quadrinhos, passando pelo estilo de roteiros, até a forma de distribuição do material criativo.  Reunindo mais de duas dezenas de autores, a reunião tirou duas resoluções importantes: a produção de um memorial para ser endereçado ao presidente e a constituição de uma associação de desenhistas. A reunião contou com figuras importantes como Gedeone Malagola, Miguel Penteado (um dos grandes incentivadores da organização), Getúlio Delphin, Ely Barbosa, João Batista Queiroz, Inácio Justo, Antonio Duarte, Almir Bortolassi, Ivan Saidenberg, Giorgio Capelli, Nico Rosso, José Lanzellotti, Messias de Melo, Daniel Messias, Ruy Perotti, Walbercy Camargo e Gali Rosa.  

            Três dias depois, em 24 de junho, os desenhistas voltaram a se reunir e iniciaram o texto do memorial e a constituição da primeira diretoria da ADESP (Associação dos Desenhistas do Estado de São Paulo). O presidente era Maurício de Sousa, Ely Barbosa (vice-presidente),

O Correio Paulistano acompanhou e divulgou com muito entusiasmo a formação da Associação. Os jovens autores finalizaram o memorial, em 28 de junho e o remeteram ao presidente. O memorial trabalhava com os seguintes pontos: a grande quantidade de HQ importadas nas bancas, que não tinham nenhuma relação com a realidade nacional, o baixo preço do material importado que entrava no país, a grande quantidade de HQs repetidas publicadas pelas editoras, as temáticas inconvenientes como a violência, o sadismo, a propaganda ideológica propaladas nas HQs importadas, a proposta de uma porcentagem mínima de HQs nacionais em revistas e jornais (sem indicar uma porcentagem) e uma proposta da criação de uma cooperativa de produção e distribuição.

            Com o memorial em mãos os membros da ADESP passaram a divulgar suas pretensões nos jornais e até na TV, no programa de Bibi Ferreira. Foram feitos contatos com autores de outros estados para que esses também se organizassem. No Rio de Janeiro, José Geraldo capitaneou as ações ao lado de Flavio Colin e Péricles. A mobilização causou alguns embaraços para os associados; foram ameaçados de demissão (Maurício de Sousa foi demitido da Folha de São Paulo), taxados de comunistas e colocados em uma lista negra pelas editoras, que não chamavam os bravos autores para publicar em suas páginas.

            Mas no campo institucional o trabalho teve eco com a reunião de Jânio Quadros com o presidente do Conselho Federal de Cultura, Mário Pedrosa, no dia 21 de agosto. Nela o presidente indicava a produção de um decreto instituindo um mínimo 30% de quadrinhos nacionais em jornais e revistas. Mas quatro dias depois, Jânio Quadros renunciou e jogou o país num redemoinho. O decreto não foi escrito, o projeto de Lei não foi votado e as propostas dos desenhistas caíram por terra.

            A ADESP ainda tentou continuar existindo, mas perderá o mote principal e assim foi diluída. Seus principais articuladores partiram para outros caminhos: Maurício de Sousa investiu em sua distribuidora de tiras, Júlio Shimamoto, Luiz Saidenberg e José Geraldo foram para o Rio Grande do Sul para participar da CETPA (Cooperativa Editora de Trabalho de Porto Alegre) cooperativa de produção de quadrinhos bancada pelo governo gaúcho e os outros seguiram produzindo quadrinhos nas mesmas condições anteriores. A experiência da ADESP aconteceu num momento importante do cenário cultural e social do Brasil, propunha-se como representação de uma pequena e dispersa classe de produtores culturais e apresentava uma interpretação possível sobre o mercado de trabalho e da própria arte quadrinhizada.

            A experiência da ADESP foi fugaz (durou cerca de quatro meses), mas levantou questões importantes sobre a produção cultural nacional e o papel que seus criadores poderiam cumprir.

 

 

                                                                        Worney Almeida de Souza

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