14.5.10

Xaxado quer ganhar o Sul Maravilha


O neto de bandoleiro que atuou no grupo de Lampião e outros personagens criados pelo baiano Cedraz saem pela HQM Editora

Moacir Assunção - O Estado de S.Paulo

Em uma primeira olhada, o traço lembra muito o do desenhista Mauricio de Sousa, "pai" de Mônica, Cebolinha e Cascão, por causa da semelhança de personagens e cenários. Um olhar mais atento revela, no entanto, que se Mauricio é universal e urbano, o desenhista Antônio Luiz Ramos Cedraz, de 65 anos, baiano de Jacobina, mas morador de Salvador, tem verdadeira fixação por temas regionais nordestinos do meio rural. Como diria Leon Tolstoi, "se queres ser universal, fale de tua aldeia" parece ser o lema do artista.

O personagem principal de Cedraz - como é conhecido o desenhista, que não deixa de confessar a influência do traço de Mauricio, mas também gosta de citar os criadores de Luluzinha e Bolinha, Marge Buell e John Stanley - é um garoto de uma idade próxima à do Cebolinha, só que moreno e com um vistoso chapéu de couro com estrelas de David na cabeça, o Xaxado. O seu nome relembra a dança criada pelos cangaceiros. Ele é neto de um bandoleiro indeterminado, que teria atuado no grupo de Virgulino Ferreira, o Lampião. Realmente, o cangaceiro andou muito pela terra de Cedraz, onde se refugiou depois de ter sido derrotado no Rio Grande do Norte e em Pernambuco. Lá, ele conheceu Maria de Déa, a Maria Bonita.

Ao lado de Xaxado, pontificam outros personagens, como Zé Pequeno, um garoto com fama de preguiçoso; Marieta, uma pequena intelectual apaixonada por livros; Arturzinho, menino rico filho de fazendeiro; a ecologista Marinês e seu irmão Capiba, fã de música sertaneja de raiz. A turminha vive aprontando todas em uma pequena vila típica sertaneja. De vez em quando, entretanto, trocam de cenário e se aventuram na cidade grande e até em outros países.

As histórias têm, muitas vezes, um quê de crítica social. Em várias tiras, Arturzinho, o garoto rico e o único que tem sobrenome, o Albuquerque das famílias patriarcais nordestinas, demonstra preconceito de classe explícito e trata seus empregados como animais, sob críticas dos colegas. Em outras, o negro Capiba é confundido com empregado de um mercado ou garçom por causa da cor.

Ícones. Em outros momentos, aparecem os típicos políticos nordestinos, principalmente o deputado Gatonildo, em roupagem de coronéis do sertão, prontos para enganar o povo. Não faltam, entretanto, ícones do folclore nacional: o Saci, a mãe d"água, a mula-sem-cabeça e até o caipora, protetor das matas pouco conhecido no Sudeste, têm seu espaço garantido.

Para tentar, por sua vez, conquistar o seu espaço no Sul Maravilha, Cedraz lançou, no mês passado, uma revista com seus personagens pela HQ Mix Editora. "No futuro, quem sabe, faço um desenho animado com a turma. A maior dificuldade é que vivo em uma cidade com poucos recursos", lamenta.

E o que o próprio pensa da semelhança de seus personagens e suas histórias com os do paulista Mauricio? "Em termos físicos, sou mais confundido com o Ziraldo, por causa dos cabelos brancos, mas sofri, realmente, muita influência do traço do Mauricio de Sousa, mas também de Luluzinha e sua turma", ressalta.

Cedraz, que participou no ano passado de uma homenagem de colegas de profissão aos 50 anos de Mauricio quando fez uma tira na qual Cascão visitava - e adorava por razões óbvias - o Nordeste, entretanto, não o conhece pessoalmente. "Espero ter a oportunidade de falar com ele. Além de ser um ótimo desenhista, Mauricio é um grande empresário e domina o mercado brasileiro com seu trabalho", elogia.

Críticas o desenhista só faz ao mercado editorial brasileiro que, em sua visão, privilegia quase que exclusivamente temáticas estrangeiras, como o mangá. "Quem faz um quadrinho tipicamente nacional, ainda mais numa região pobre, como é o meu caso, enfrenta enormes dificuldades", diz.

Nascido em uma fazenda no município de Miguel Calmon (BA), Cedraz foi professor do nível fundamental e bancário. Seus primeiros desenhos foram feitos quando tinha somente 16 anos. Passou a se dedicar às tiras depois da aposentadoria no banco.

Os primeiros quadrinhos que leu, já em Jacobina, no norte da Bahia, a 330 quilômetros de Salvador, foram Tarzan, Super-Homem, Capitão Marvel, Fantasma e os personagens de Walt Disney. Desenhistas brasileiros da década de 1960 como o próprio Mauricio, Ziraldo, Nico Rosso, Sérgio Lima, Shimamoto e outros também integram suas influências.

Prêmios. Os trabalhos do artista foram publicados em tiras durante 12 anos no jornal A Tarde, de Salvador, e em livros e revistas que produz na própria editora, a Cedraz Estúdio. Apesar de ter ganhado vários prêmios, como o troféu de destaque no 2.º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em Araxá (MG), em 1989; quatro troféus HQ MIX (1999, 2001, 2002 e 2003), além do Prêmio Ângelo Agostini de "Mestre do Quadrinho Nacional", o desenhista permanece pouco conhecido fora do Nordeste. O seu trabalho pode ser apreciado no site www.xaxado.com.br.

Veículo: O Estado de S. Paulo

Um comentário:

jorginho da hora disse...

Ha muitissimo tempo que o cedraz merece esse reconhecimento.